Entrevista com o jornalista Marco Antônio Gehlen

Reinaldo Ajala (radialista) e Marco Antônio Gehlen em bate papo na FES

Marco Antônio Gehlen é jornalista, 29 anos. Aceitou, gentilmente, responder algumas perguntas a esta amiga, estudante de jornalismo.

Val Reis: Descreva sua trajetória profissional com data, desde a faculdade.

Marco Antônio – Terminei minha graduação em Jornalismo em 2002, ano em que fui chamado por um colega para dar início ao projeto de um site de notícias em MS. Começamos, naquele ano, a elaborar o que seria o portal TerrasMS, que no projeto original chegou a ser um dos pioneiros na publicação de vídeos on-line. Tínhamos cinegrafistas na equipe, ilha básica de edição e chegamos a contar com até dez colegas entre jornalistas e estagiários. No entanto, depois de algum tempo, o projeto original foi modificado e a equipe inicial se desfez. Ainda em 2003, comecei a trabalhar como assessor de imprensa na equipe da Acrissul e Expogrande, o que permaneci fazendo até 2008, ora como contratado, ora como freelancer. Entre 2004 e 2006 cursei uma especialização em Comunicação Empresarial. Em paralelo, ainda em 2004, ingressei na editoria de economia como repórter do Jornal o Estado de MS e fiquei na função até o dia 10 de fevereiro de 2006, data que marcou minha ida ao concorrente, o Correio do Estado. Comecei a trabalhar, também na editoria de economia do “Correio”, no segundo mês de 2006 e fiquei por lá até outubro de 2009, quando me desliguei do jornal para assumir uma vaga como professor de jornalismo na Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Foram quase sete anos de jornal impresso.

Val Reis: O que te levou a pensar em ser jornalista?

Marco Antônio: Confesso que no final do ensino médio fiquei um pouco em dúvida quanto ao que seguir, afinal é uma escolha que deve ser feita quando ainda não estamos totalmente preparados para tal. Naquele momento o jornalismo me atraiu pelas possibilidades de desenvolver um trabalho com relevância social, com pouca rotina e, principalmente, por estar na área de humanas, com a qual sempre me identifiquei, embora adore números, matemática, estatística etc.

Val Reis: Qual a sua opinião sobre o jornalismo de Campo Grande? Estamos atrasados quanto aos grandes centros? Temos bons jornalistas aqui?

Marco Antônio: Não creio que estamos atrasados e temos, sim, excelentes jornalistas em Campo Grande. Acho, apenas, um tanto frustrantes as limitações quanto a possibilidades de crescimento profissional enfrentadas por nós jornalistas de MS. As possibilidades de ascensão são restritas, os maiores veículos abrem poucas vagas e cabe, cada vez mais, aos profissionais encontrar alternativas ao limitado mercado de trabalho. Vejo a ampliação da concorrência entre distintos sites, rádios, TVs, jornais e blogs como relevante para um processo de criação de novas possibilidades aos profissionais do Estado, bem como julgo importante o desenvolvimento de um processo inicial de renovação dentro das redações, a começar por grande parte dos editores responsáveis pelo que se publica no Estado.

Val Reis: Você já trabalhou em online e impresso (é isso?), qual a diferença entre eles? Qual te exigiu mais e porque?

Reinaldo Ajala (à esquerda) e Marco Antônio Gehlen em bate papo na FES, curso de Jornalismo.

Marco Antônio: Já trabalhei em site e em jornal impresso. A principal diferença, e óbvia, diz respeito ao time da notícia, o que afeta o processo de apuração e a qualidade. Não que seja possível rotular sites como inferior em qualidade que os impressos. Não é isso! Mas, comparativamente, quando somos repórteres, sentimos claramente a diferença entre poder ou não trabalhar uma matéria com mais tempo. No meu caso, os sites exigiram mais velocidade, enquanto os impressos exigiram maior profundidade. Particularmente, gostei mais das experiências em jornais impressos pelo peso histórico-documental que as notícias deste tipo de mídia podem vir a ter.

Val Reis: Que trabalho você já fez que te realizou, ou que tem alguma peculiaridade que o distingue dos demais?

Marco Antônio: Trabalhar com as editorias de economia e agronegócios (rural) foi algo que realmente me deixou satisfeito, tanto que busquei conhecer mais sobre o assunto e cursei o Mestrado em Agronegócios na UFMS. Gosto de números e acho que esta foi uma maneira de ficar perto deles, sendo que muitos colegas “correm” da matemática depois da graduação, distanciando-se também das editorias de economia. Trabalhar do Correio do Estado também foi algo que sempre me deixou realizado, entre outros fatores, pelo impacto que as reportagens publicadas pelo jornal conseguem alcançar. Claramente, a representatividade do jornal em MS favorece a leitura e o feedback aos repórteres.

Val Reis: Algo no seu trabalho como jornalista já te deixou frustrado, você achou desagradável de fazer?

Marco Antônio: Trabalhar em assessoria de imprensa nos coloca em conflitos relacionados à imparcialidade em algumas ocasiões, mas não considero que tenha havido frustração. É claro que em qualquer veículo de imprensa não é diferente, a depender do tema a ser tratado e dos interesses (que existem sim) envolvidos. Independentemente destes problemas, que são facilmente resolvidos desde que o jornalista busque fazer o melhor possível dentro do cenário que está inserido, ainda penso que a maior frustração tenha sido a escassez de “luz no fim do túnel” quanto à possibilidade de crescimento profissional.

Val Reis: Na sua opinião, qual o futuro do jornal impresso, com o avanço dos blogs e jornalismo online?

Marco Antônio: Acredito no poder documental do impresso e no jornal como mídia de profundidade, quando quase todas as demais mídias se renderam à velocidade e superficialidade. Em minha opinião, é preciso repensar o processo de produzir um jornal, de modo que a profundidade e as discussões presentes nos textos justifiquem a compra dos jornais pelos leitores no dia seguinte aos fatos. Os blogs e sites de jornalismo on-line são ‘terra fértil’, mas em meio ao vasto mar da web, terão que mostrar sua capacidade de efetivamente selecionar e disponibilizar conteúdos. Creio que principalmente os sites de notícias terão que reavaliar a condição com que se renderam à velocidade e à pressa, em um processo que possa melhorar a qualidade e profundidade do que é publicado. Como diz um colega: o jornalismo correu tanto que tem esquecido os contextos. Parte da profundidade necessária às notícias, a meu ver, tem aparecido em blogs independentes, onde a pressa deixou de ser relevante e o conteúdo ganhou força.

Val Reis: Que mensagem deixa para os jornalistas que estão começando?

Corra enquanto é tempo! (brincadeira, óbvio. Risos). Jornalismo é uma profissão apaixonante e que precisa ser repensada diante de novos e velhos paradigmas. Como qualquer profissão, cabe a cada um desenvolver seu caminho, com persistência, dedicação, estudos, muita leitura e um pouco de empreendedorismo, uma vez que estamos cada vez mais independentes do controle dos grandes grupos de comunicação e podemos criar novos meios, novos veículos, para se comunicar. Como mensagem, deixo também algo que acredito firmemente: não se contentem com a superficialidade ao tratar os temas. Especializem-se, aprofundem-se, fucem, estudem mais e mais, para que possamos contribuir com um jornalismo mais adequado.

Val Reis: E agora, que vc se mudou recentemente de cidade/estado, qual sua expectativa quanto à sua profissão? Quais são os desafios?

Marco Antônio: Depois de 25 anos de Mato Grosso do Sul, parto para outro estado (Maranhão) com grandes expectativas de dar início a um trabalho de compartilhamento do conhecimento que acumulei até o momento, bem como de aprofundamento de meus estudos em jornalismo e em áreas de meu interesse. Para o futuro, penso em seguir com carreira acadêmica e cursar um doutorado acadêmico.

Mudar de estado e deixar o jornal impresso para atuar como professor de jornalismo tem sido um desafio enorme, mas que vejo com ânimo pelas possibilidades de continuar a minha formação e contribuir para a formação de futuros colegas jornalistas. Os principais desafios passam pelo ato de “repensar o modelo de se fazer jornalismo” e de me esforçar para formar profissionais mais bem preparados.

Val Reis: Te desejo boa sorte nesta nova trajetória!