Leishmaniose: donos de cães acham que o CCZ deveria exterminar o mosquito, não os cães

Por Val Reis, Amparim Lakatos e Paulo Victor

Cães que apresentam leishmaniose em Campo Grande estão sendo sacrificados. Isso tem gerado revolta em alguns donos de animais, que se recusam a entregá-los para a eutanásia. De acordo com o médico veterinário e mestre em Imunologia da UFMS, André Luis Soares da Fonseca,  o tratamento da Leishmaniose Visceral Canina leva a cura clínica da doença, mesmo com a sorologia  positiva, o que apenas indica um prévio contato com o parasita, como acontece em outras doenças por protozoários, como a doença de chagas.

Essa foi uma experiência vivida pelo empresário Adair Oliveira quando recebeu a informação que seu cão estava com a doença. “O pessoal do Centro de Controle de Zoonoses – CCZ veio até minha casa e colheu sangue do meu cachorro, deixando uma coleira que repelia o mosquito. Meses depois me ligaram dizendo que meu animal estava com leishmaniose e teria que sacrificá-lo”.

O empresário encontrou alguns obstáculos na tentativa de salvar o animal.  Visitou três clínicas veterinárias e a resposta era sempre a mesma: “não tratamos cães com leishmaniose”. Na quarta clínica, encontrou um veterinário que decidiu tratá-lo com vacinas, já que o tratamento com medicamento humano, anteriormente utilizado, foi proibido pela portaria nº 1.426 do Ministério de Saúde em Julho de 2008. De acordo com a diretora de vigilância em saúde, da Secretaria de Saúde de Campo Grande, Ana Lúcia Lírio de Oliveira, quando o animal é tratado com medicamento humano, ele vai adquirindo resistência a doença e quando o ser humano precisar do remédio, ele não agirá com o mesmo efeito.

Adair e seu cocker Half – Foto Val Reis

Adair tentou regularizar junto ao CCZ a situação do cão, mas foi informado que não estavam mais aceitando o tratamento e ainda ameaçaram retirar a licença da clínica veterinária que se propôs tratar a doença. “O meu cão teria que ser sacrificado, ou então teria no meu IPTU uma multa de nove mil reais. Achei absurdo, entrei em contato com o pessoal do Abrigo dos Bichos, que me orientou a esperar, já que estavam com uma liminar na justiça contra isso”, afirmou o empresário.

O Abrigo dos Bichos é uma associação de Campo Grande que cuida de animais abandonados. Essa entidade entrou com uma ação contra o Município e o CCZ e conseguiu uma liminar que proíbe a eutanásia dos cães com a doença. Segundo o advogado Fábio Andreazi, pelo menos por enquanto, o Município de Campo Grande, o CCZ e até o Presidente da República, por conta de uma ordem judicial do Tribunal Federal em São Paulo, continuam proibidos de matar cães portadores de leishmaniose na cidade. “Ganhamos a liminar e o recurso. Tenho fé que ganharemos a causa e os cães inocentes serão poupados”, afirma Fábio.

O médico veterinário André Luis afirma, no blog nossomundo.com, que os animais merecem respeito e o amor dos proprietários, que podem e devem utilizar os medicamentos disponíveis para tratar dos seus animais de estimação. Na ordem jurídica, o proprietário tem o direito de tratar o seu animal, como tem de defender a sua propriedade (direito constitucional), pois o cão é tido muitas vezes como um membro da família, portanto, um bem jurídico especial.

Segundo a CCZ, em 2009, mais de 130 mil cães foram examinados e 13% deram resultado positivo para a doença, em Campo Grande. A Prefeitura distribuiu coleiras repelentes para os animais sadios. O maior problema que eles enfrentam é a resistência das pessoas em entregar os animais para os Centros de Controle de Zoonoses.

“Além dos focos de proliferação da doença, como terrenos sujos, a resistência dos donos dos cães infectados em sacrificar os animais também prejudica o combate a doença. Um cão com leishmaniose não tem cura. O animal pode estar sem nenhum sintoma e ser portador da doença. Além disso, ele vai disseminar a doença na região onde mora”, afirma a coordenadora do CCZ, Júlia Macksoud Brazuna.

Pedro e sua cachorra Pipoca.

Já a assistente social Lesly Ledezma decidiu entregar seu cão para a eutanásia. “Quando eu soube que a minha cadela, um vira-lata chamado Pipoca, estava com a doença, eu fiquei muito triste, mas pesquisei bastante sobre o assunto. Meu filho de sete anos, o Pedro, ficou muito sentido, mas era melhor para ele, não podia arriscar, já que a doença atinge principalmente crianças e idosos”, conclui Lesly.

Adair Oliveira, inconformado, continua o tratamento do seu animal e diz que vai até as últimas conseqüências para manter seu cão vivo. “Eu não entendo por que o CCZ não se preocupa em acabar com o mosquito, em vez do cão, afinal de contas é ele quem transmite a doença. Eles não respeitam o amor que a gente sente pelo animal”.

Entenda a doença

A leishmaniose é transmitida aos seres humanos pela picada do mosquito palha que foi contaminado com um protozoário do gênero Leishmania. A doença pode causar feridas na pele e afetar alguns órgãos internos como fígado, medula óssea e baço. O protozoário atinge também outros animais, como o cachorro, que nas zonas urbanas é o principal hospedeiro da doença. A maioria dos cães que possuem leishmaniose não apresenta sintomas. Quando estes ocorrem, podem ser emagrecimento, problema de pele, apatia, anemia e falta de apetite. A doença ataca principalmente idosos e crianças com menos de dez anos.

O mosquito flebótomo, transmissor da doença, se prolifera no meio de matéria orgânica. Quintal sujo e cheio de folhas é o local ideal para a reprodução do mosquito. Se não for tratada logo, a leishmaniose em humanos mata 90% dos pacientes, porque afeta os órgãos vitais. A doença está presente em 20 estados. Nos últimos cinco anos as notificações aumentaram em 61%. E a Organização Mundial de Saúde indica a eutanásia nos cães infectados.

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3 comentários em “Leishmaniose: donos de cães acham que o CCZ deveria exterminar o mosquito, não os cães

  1. Bruna Gomes disse:

    eu penso se não seria mais facil para o governo, tratar dos animais doentes ao invés de sacrificalos, as vezes poderia até mesmo ser mais barato investir no tratamento, e não no esterminio desses animais inocentes, e que não tem culpa do que está acontecendo.

  2. Rafaella disse:

    Tudo bem, se eles alegam que a doença não tem cura no animal, cabe ao proprietário do cão decidir se vai se arriscar ou não em mante-lo em casa. Essa história de que o cachorro TEM que ser sacrificado é um absurdo. Assim como as pessoas tem o direito de optar ou não pela eutanásia em algum parente, elas também devem ter o direito de optar pela eutanásia em seu animal de estimação.
    A melhor solução para isso tudo seria investir na prevenção da doença e investir no combate do mosquito para que seja evitada a proliferação do mesmo.
    Imagina só se ao invés de terem buscado uma cura para a gripe suina a Organização Mundial de Saúde recomendasse a eutanásia para as pessoas infectadas ??
    Aonde esse mundo vai parar….

  3. Gilson disse:

    Na Europa já se divulga pesquisas que na verdade é o homem que é o hospedeiro sem sintomas e contamina os cães. O homem já possue o parasita incubado desde o nascimento e precisa de um quadro de imuno deficiência para desenvolver a doença, e o cão não existe proteção logo que o parasita cai na corrente sanguinea, desenvolve a doença. Coitado, leva a culpa.

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