Noites molhadas: drama de um jovem que fazia xixi na cama até os 15 anos

Por Val Reis

Gustavo Brito tem 22 anos e até os 15 fazia xixi na cama quase todas as noites. Isso o constrangia e tornava sua vida muito complicada, numa fase da adolescência, em que confusões e dúvidas povoam a cabeça dos meninos e meninas.

“Desde que me lembro, eu fazia xixi na cama. No início, minha mãe me ameaçava… Eu me levantava todo molhado, e ela se estressava… Às vezes me batia, fazia lavar o lençol, gritava comigo… Era muito pequeno, mas não esqueço. Fui crescendo e a coisa foi piorando. Um dia, minha mãe leu uma matéria que falava de xixi na cama após quatro ou cinco anos era sintoma de uma doença, a enurese. Ela então parou de me culpar e foi buscar ajuda”, conta Gustavo.

A mãe de Gustavo procurou primeiro a medicina tradicional, fazendo diversos tipos de exames que deram em nada. Estaria tudo normal. Então partiu para a psicologia, e Gustavo começou a visitar uma psicóloga toda sexta-feira à noite, com os pais, pois tinha que ser em grupo, embora as conversas fossem individuais, o que tornou o tratamento menos traumático.

“A psicóloga me dava uma cartelinha com carinhas alegres e carinhas tristes. Todas as manhãs, se eu acordasse seco, eu marcava uma carinha alegre. No início foram várias carinhas alegres, depois fui piorando… e a cartelinha voltava com mais carinhas tristes. Era como eu me sentia, cada vez qu entrava no consultório”, afirma Gustavo.

Depois de quase um ano, a psicóloga recomendou um tratamento da USP especializado em enurese infantil, que estava sendo desenvolvido gratuitamente no Hospital das Clínicas em São Paulo. Nesta época a família morava lá. Gustavo conta que eram dois ônibus e uma grande distância de metrô, todo sábado de manhã. Um grupo de pessoas com o mesmo problema se reunia para o tratamento, que se baseava em longas conversas. Posteriormente, a família levou para casa um aparelhinho que era colocado em cima do lençol, e quando começava a molhar, ele apitava e acordava a criança e toda sua família. Outro tratamento que falhou depois de muitas noites mal dormidas.

Humilhação e afastamento das pessoas

“Em casa, minha mãe proibiu qualquer um de comentar sobre este assunto, tanto dentro de casa como na rua, mas eu tinha a impressão que todo mundo sabia. Meu irmão menor, desde os dois ou três anos já não fazia xixi na cama, situação que me deixava muito humilhado. Eu não entendia por que eu não conseguia, e isso fez com que minha autoestima fosse lá pra baixo. E para complicar, ainda era mais baixo que todos os meus colegas e me colocavam diversos apelidos na escola. Eu comecei a me distanciar das pessoas.”

Um momento difícil, relata Gustavo, foi quando uma prima, que estudava na mesma sala que ele, acabou contando a alguns colegas sobre isso. Isolar-se foi a saída, e o pior aconteceu. Num dia em que a professora não o deixou sair durante a aula para ir ao banheiro, não podendo segurar, ele acabou molhando as calças. Desde então os colegas não o deixavam em paz. Na época, quem contou em casa foi a prima, e o pai foi até a escola, fez um escândalo, mas para Gustavo, a humilhação ainda continuou por longos anos.

Quando o tratamento com o alarme deu errado, cansado do cheiro forte e das constantes trocas de colchões e forro de cama, a mãe de Gustavo obrigou-o a usar fraldas para dormir, uma fase de sua vida, que ele quer esquecer. Estava com 14 anos, e foi traumático, não só para ele, como para todos em casa. Ele não queria usar, pois se sentia muito constrangido, e toda noite era uma briga.

“Era humilhante demais. No início eu só chorava. Depois fui me acostumando. Eu não podia dormir na casa de amigos, algo comum na adolescência. E toda vez que me esquecia e pedia pra minha mãe deixar, ela lembrava do problema, o que fazia com que eu me sentisse a pior das pessoas”.

E assim foi durante toda sua infância e adolescência. Tornou-se irritado, tímido e muito inseguro. Até hoje evita falar sobre o assunto, que ainda lhe causa muito constrangimento. “Um dia, e não me lembro como nem porque, comecei a molhar a cama de forma mais espaçada, até que não mais aconteceu. Não sei a razão, não sei porque comigo… só sei que perdi muito com isso, pois me tornei extremamente inseguro, e essa insegurança me acompanha até hoje”, relata Gustavo.

 

Entenda a Enurese Infantil

A Enurese atinge 15% a 20% das crianças a partir dos cinco anos. Estudos comprovaram que é mais frequente em meninos. Calcula-se que haja no Brasil em torno de 3 milhões de portadores. O fenômeno se caracteriza quando a criança maior de cinco anos molha a cama mais de duas vezes por semana. Se não fizer nada, ao longo dos anos 10% a 15% em geral superam o problema. No entanto, 1% a 2% dos portadores o mantém na vida adulta, relata Maurício Hachul, médico urologista e um artigo na internet.

Segundo ele, a primeira causa da enurese é genética. Se um dos pais era enurético quando criança, os filhos têm 40% de possibilidade de apresentá-la também; se os dois eram enuréticos, os riscos dos filhos já sobem para 75%.

(Gustavo Brito é um nome fictício, pois o entrevistado não quis se identificar na matéria)

Sergio Vilas-Boas dá dicas para se fazer Jornalismo Literário no 6º Congresso Abraji

Sergio Vilas-Boas, autor dos livros “Biografismo”, “Biografias & Biógrafos” e “Perfis”, dará um panorama do Jornalismo Literário e dicas de como utilizá-lo, durante o 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo. O jornalista acredita que atualmente há, na imprensa brasileira, muitas pautas típicas para tratamento em estilo narrativo, “mas essas boas ideias, no geral, terminam desperdiçadas”. Segundo ele, elas acabam sendo executadas de um ponto de vista estritamente informativo e não com a abordagem mais detalhada e arejada que necessitavam.

Vilas-Boas defende que o jornalismo literário é uma forma jornalística, como todas as outras, onde não existe espaço para ficção: “Trata de pessoas reais vivendo situações reais em lugares reais. Portanto, não se pode inventar”. Para Vilas-Boas, todas as formas jornalísticas são investigativas, mas o bom jornalismo literário embora construído com pesquisa e conversação intensivas, não costuma ser comparado ou confundido com o investigativo. “O jornalismo literário possui uma característica intrínseca extra: a linguagem artística. O literário e o investigativo, porém, coexistem há séculos e, a priori, nada impede um repórter de fundir os dois conceitos numa mesma reportagem”, afirma.

O autor garante que mesmo textos moldados pela estrutura tradicional do jornalismo podem adquirir maior literariedade com alguns recursos narrativos. “As descrições física, psicológica e atmosférica (clima/ambiente no qual os personagens se movem) podem fazer grande diferença em termos de compreensão. Sendo a descrição uma técnica literária básica, não há grande mistério em utilizá-la tanto em textos longos quanto curtos”, diz. No entanto esclarece: “claro que isso não basta. Mas é um bom começo”.

Para quem tem o interesse de fazer um jornalismo diferente, reportagens mais profundas e com diferentes abordagens, ele dá as seguintes dicas:

1) Consuma/leia mais narrativas que noticiários;

2) Estude o jornalismo literário o máximo possível, a fim de não idealizá-lo ou distorcê-lo com práticas imaturas;

3) Desenvolva habilidade de pesquisa e conversação em campo;

4) Tenha prazer em lidar com pessoas, suas tentativas de acerto e suas contradições;

5) Ame a escrita com uma forma de arte;

6) Acredite que o jornalismo se expressa por métodos e linguagens plurais, e que jornalismo literário é apenas uma dessas linguagens (nem melhor nem pior que outras). Por fim, afirma: “o jornalismo literário não se faz por e-mail, telefone ou redes sociais”, contrariando uma prática comum nas redações.

6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo

Quando: 30 de junho a 2 de julho de 2011 Onde: São Paulo – Universidade Anhembi Morumbi – campus Vila Olímpia – unidade 7 (Rua Casa do Ator, 275)

Inscrições: http://bit.ly/6congresso

http://abraji.org.br/?id=90&id_noticia=1524