Estrelas no asfalto. Violência no trânsito é marcado com estrelas nas ruas de Campo Grande

Estrelinha na Rua Brilhante

As ruas de Campo Grande estão ganhando uma nova sinalização, a partir de agora, para alertar os motoristas que ali já aconteceram acidentes graves. Estrelas amarelas marcam os locais onde ocorreram mortes causadas pela violência no trânsito, uma ação do Gabinete de Gestão Integrada de Trânsito (GGIT), composto por órgãos de trânsito da cidade. Foram pintadas inicialmente 55 estrelas, além da implantação de um placar na Av. Afonso Pena, que é zerado sempre que ocorre uma morte no trânsito.

Segundo Ivanise Rotta, Chefe da Divisão de Educação da Agetran, as estrelas pintadas têm o objetivo de fazer com que as pessoas possam refletir que no caminho delas, um cruzamento comum, muitas vezes sinalizados e aparentemente tranquilos, teve um acidente fatal, uma vida se perdeu ali. “A partir do momento que eu consigo compreender o trânsito como um espaço coletivo, eu consigo realmente prevenir muitos acidentes”, explica Ivanise.

De acordo com o diretor-presidente da Agetran, Rudel Trindade “a estrela amarela simboliza a esperança, a paz e a reflexão. Quem passar por uma irá refletir sobre o local que causou uma morte no trânsito”.

Mas as estrelas e o placar não parecem sensibilizar os motoristas, pois desde a sua implantação, no dia 11,  até o final do mês de maio, foram mais 10 mortes no trânsito de Campo Grande. Segundo Janice Alves, no caminho de sua casa para o trabalho, passa por quatro estrelas e nem foi atualizado nas últimas semanas. “Os jovens estão se matando e matando os outros! Acabam com famílias inteiras, transformando seus veículos em arma”, afirma Alves.

Já Eva Gomes acha que “os campograndenses não precisam de estrelas pintadas no asfalto, precisam de fiscalização mais rígida contra os infratores que colocam em risco a segurança das pessoas de bem e dos nossos filhos. Enquanto o município pinta estrelas nos locais de acidente fatal a cidade está mal sinalizada concorrendo para pintar mais e mais estrelas”.

Nossos idosos

Com andar mais lento, e os olhos que já não enxergam tão bem, os idosos que se aventuram a atravessar as ruas mais movimentadas de Campo Grande correm um risco muito grande. Foi assim com Dona Erotildes Floriano da Silva, de 60 anos, que ao tentar atravessar a Av. Afonso Pena em frente ao shopping, foi atropelada por um carro de passeio no dia 19 de maio. Ela foi socorrida e encaminhada para a Santa Casa, mas acabou morrendo.

No dia 23 de maio foi o dia em que Dona Pedrina Petronílio de Souza, 70 anos, também acreditando ser seguro atravessar a av. Gury Marques, no bairro Universitário, acabou sendo  atropelada por volta das 17h30 por uma moto. Socorrida, também veio a falecer na Santa Casa.

Pedalar para o trabalho era a rotina do segurança Osvaldo de Souza Marques, de 70 anos, todo final de dia. Mas, no último dia 25 de maio, ao atravessar a Avenida Fabio Zahran, esquina com a Rua Planalto, na Vila Carlota, foi atingido por um carro de passeio.  Ele também foi socorrido, mas acabou morrendo no hospital.

O seu Antônio Nunes de Oliveira, 70 anos, morreu na noite de 31 de maio, na Santa Casa de Campo Grande, após ser atropelado por uma motocicleta na Vila Margarida. Seu Antônio andava com dificuldade devido a limitação física, e se tornou o número 14 nas estastíticas, pois foi a décima quarta vítima fatal do trânsito depois da implantação do placar da vida, em 11 de maio.

De acordo com a técnica em educação para o trânsito, Vera Lúcia de Matos, é importante que o idoso use roupas claras durante à noite, esteja sempre com calçados confortáveis e lembre-se que muitas vezes, a visão e a audição estão comprometidas, neste caso, é importante andar sempre acompanhado de outra pessoa.

Atrás do gato pode haver uma criança

Na noite de 7 de abril, Ângelo Quirino Mareco de 6 anos saiu em disparada atrás de um gato, na frente de sua casa, na Rua Quintino Bocaiúva, no Jardim TV Morena e foi atingido por um carro de passeio. Morreu horas depois no hospital. Segundo relato de Carlos Naegele, em seu twitter, que passou na rua no momento do acidente, “foi muito triste ver a mãe com o menino nos braços, desesperada”.

A menina Kauanny Gonçalves da Silva, também de 6 anos, foi atropelada por um caminhão no dia 25 de abril, quando tentava atravessar  a Avenida Marquês de Pombal no bairro Tiradentes. Ela ficou 19 dias no Centro de Tratamento Intensivo (CTI) da Santa Casa de Campo Grande, vindo a falecer no dia 13 de maio.

Também por um caminhão, Vinicius Nunes da Cruz Maciel, de 8 anos,  teve morte instantânea no cruzamento da Rua Itambé com a Av. Ana Rosa Ocampo, no Jardim Montevidéo. Ele estava de bicicleta e entrou na preferencial sem prestar atenção, segundo um amigo que estava com ele na hora do acidente. Seu pai pendurou a bicicleta em uma árvore na rua, próximo ao local de sua morte, para, segundo ele, as pessoas refletirem sobre a violência no trânsito.

“Eu sinto muito pela morte do Vini, ele era o melhor amigo do meu filho e ele não era um filho qualquer, ele era filho único, sua mãe tinha o maior cuidado com ele. Isso foi uma fatalidade, pois ele sempre vinha em minha casa de bicicleta brincar com meu filho”, afirma Claudia Azevedo, amiga da família. “ Se eu pudesse arrancava a dor da sua mãe Mariazinha e o choro do meu filho pela perda do amigo, mas a única coisa que posso fazer é pedir a Deus que a conforte e receba esse lindo anjo em seu céu e que vai nos deixar uma saudade, um vazio imenso”, finaliza com voz embargada.

Um estudo encomendado pela ONG CRIANÇA SEGURA revelou as principais causas de mortes acidentais de crianças menores de 15 anos nos estados brasileiros. A análise apontou, entre outros resultados, os acidentes de trânsito no Mato Grosso do Sul como os principais responsáveis pelos óbitos de crianças até 14 anos.

Números

Em maio foram pelo menos 1.108 acidentes na Capital, sendo que seis tiveram mortes no local. Mas considerando as mortes nos hospitais após até 30 dias do acidente, o GGIT (Gabinete de Gestão Integrada de Trânsito) conta 17 vidas perdidas no trânsito, sendo cinco idosos e duas crianças.Mato Grosso do Sul está entre os estados com maior índice de acidentes no Brasil, principalmente entre jovens com idade entre 15 a 24 anos. Pesquisa divulgada pelo Ministério da Justiça, em fevereiro deste ano, mostra que o estado ficou em quarto lugar no ranking nacional.

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