Pelas ruas de São Paulo, saudosismo puro!

Val Reis

Morei em São Paulo mais de seis anos. Convivi neste período com o trânsito caótico, multas em dias de rodízio, aprendi me perdendo a encontrar lugares, sabendo que uma vez errando uma rua, eu sairia num lugar totalmente diferente daquele ao qual eu  planejava ir, pois as quadras não são certinhas, mas em forma de labirintos. Já errei muitas vezes indo aos mesmos lugares.

Este final de semana, depois de um bom tempo sem ir a grande metrópole, fui participar de um curso sobre redes sociais e aproveitei para dar uma volta nas mesmas ruas onde vivi tanto tempo, visitar o mesmo mercado que eu fazia minhas compras de todo dia… e encontrei um lugar totalmente diferente. Na rua onde eu morava, no bairro da Mooca, vários prédios foram construídos, altos, enormes… sentei-me no bar onde eu tomava meu café da manhã e encontrei velhos amigos, as crianças crescidas e as conversas me levando a um tempo em que meus filhos eram pequenos, muito pequenos.

Nunca em toda a vida me senti tão viva e tão produtiva como nestes seis anos em que morei em São Paulo. Eu descobria coisas, visitava teatros e museus, levava e buscava meus filhos na escola e trabalhava ao mesmo tempo. Eu conseguia ir ao Brás ou à 25 de Março aproveitar promoções e no final de semana, sem me importar com o trânsito, ia para a praia. Demorava três ou quatro horas num trajeto que sem trânsito demoraria menos de uma. Comprei um título de um clube em Atibaia, cidade próxima e uma ou duas vezes ao mês conseguia ir com a família e curtia muito. Comemorei bastante o dia em que consegui ir de carro à Av. Paulista pela primeira vez sem me perder…

Meu período em São Paulo foi de grandes emoções. Foi lá que tive a minha primeira empresa, fechei o primeiro contrato e fiz várias coisas legais. Foi lá que enfrentei os primeiros processos trabalhistas,o fim de um casamento e sofri muito… a empresa não se sustentou e fui trabalhar como caixa de mercado, num período difícil que nem gosto de lembrar. Foi lá que tive dois carros roubados em um curto período de tempo.  Foi lá que comi as melhores pizzas e visitei os melhores shoppings. São Paulo me deu muito, e me tirou muito também.

Dois fatos me fizeram ver que o meu tempo em São Paulo estava chegando ao fim. Eu tinha marcado dentista num dia qualquer da semana. Peguei o carro e fui até lá. Não era longe de casa, mas com minha vida sedentária, e pensando nas ladeiras das ruas da Mooca, eu preferia dirigir. Parei o carro um pouco abaixo do prédio do consultório e entrei. Esperei a minha vez, lendo revistas antigas e depois de ser atendida, fui para casa. Ao chegar o meu marido me olhou de forma estranha e foi logo perguntando.

– Cadê o carro?

Eu olhei para ele sem entender, puxei pela memória tentando lembrar meu trajeto e espantada, coloquei a mão na cabeça, exclamando:

– Esqueci o carro!!!

Ele começou a rir enquanto eu voltei a pé até onde havia deixado o carro. Completamente alheia, eu havia saído do consultório e esquecido que tinha ido dirigindo, voltei para casa a pé, deixando o automóvel estacionado lá.

Outro dia, na hora em que eu saí do trabalho para almoçar, passei na escola do meu filho pequeno para pegá-lo. Estacionei o carro, desci e fui apressada até onde ele me esperava todo dia, no pátio da escola. Todos os alunos saíram e ele não apareceu. Procurei a inspetora, que foi atrás dele. Voltou um tempo depois, dizendo.

– Ele não está aqui. Tem certeza que o pai não veio buscar?

Não, eu estava com o único carro da família. Não tinha como ele ter ido. Comecei a me desesperar. Os olhos foram se enchendo de lágrimas, o coração batendo em uma velocidade que eu não podia controlar.

– Calma – disse a inspetora – Vou olhar se ele não está na turma de reforço. Mas tem certeza de que ele veio hoje?

E foi entrando para verificar na sala do reforço enquanto suas palavras ecoavam na minha cabeça. O que ela disse puxou da minha memória uma lembrança… O que eu fiz hoje de manhã? Acordei atrasada, perdi a hora… Se eu perdi a hora, certamente o meu filho também perdeu a hora. E se ele perdeu a hora e a escola não aceita que o aluno chegue atrasado, manda voltar, então certamente eu não o trouxe!

Realmente, eu havia perdido a hora e estava ali buscando meu filho que eu não havia deixado na escola. Quando a inspetora voltou, eu disse a ela, cheia de vergonha, que talvez o pai tinha vindo realmente buscar e qualquer coisa eu falaria com ela. Sem coragem de admitir tal falha, fui embora para casa com um único pensamento: “Vou embora de São Paulo pois estou enlouquecendo aqui”.

E assim o fiz. Tudo isso passou pela minha cabeça, dirigindo pelas ruas de São Paulo. Saudosismo puro de um tempo que jamais voltará.

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